As edições primitivas da tradução de Almeida

O projeto Bíblia Almeida Original teve por objetivo central a revitalização das mais antigas edições da tradução de Almeida, entendidas como patrimônio da língua portuguesa. Esse propósito justificava-se, sobretudo, pelo fato de que, ao ser popularizada a partir do século XIX e, em particular, ao longo do século XX, foram priorizadas não as suas primeiras edições, mas sim outras secundárias e, a nosso ver, já corrompidas pela ação de revisores.

Com isso, tinham sido praticamente relegadas ao esquecimento aquelas que são de fato as primeiras: o Novo Testamento de Amsterdã, impresso em 1681, e o Antigo Testamento de Tranquebar, publicado entre 1732 e 1757 por missionários luteranos radicados na Índia. Estas edições pioneiras apresentam qualidades literárias que acabaram minimizadas por uma série de adaptações conduzidas por revisores holandeses, com o intuito de harmonizar o texto português à Statenvertaling (1637), tradução oficial dos Países Baixos. A fim de resgatar a verdadeira editio princeps da tradução de Almeida, foi-nos necessário proceder a uma meticulosa atualização ortográfica do texto bíblico, com o intuito final de torná-lo amplamente acessível numa plataforma digital. Além disso, a revitalização do texto arcaico foi acompanhada por uma análise comparativa destinada a elucidar, finalmente, o problema das fontes textuais usadas pelo tradutor. Antes de tudo, foi preciso reunir uma série de elementos textuais e históricos que demonstrassem a superioridade das referidas edições bíblicas de Amsterdã e Tranquebar, de modo que elas pudessem ser efetivamente reputadas como a representação editorial mais fiel do estilo literário do tradutor.

O Novo Testamento de Amsterdã (1681)
A primeira edição Novo Testamento (1681)

Quanto ao Novo Testamento, o primeiro indício da superioridade da edição de 1681 em relação às subsequentes (1693, 1712, 1765 e 1773) advinha da sua própria precedência temporal, visto que havia sido publicada ainda em vida do tradutor. É sabido que essa primeira edição havia sido maculada, segundo os especialistas, por um conjunto expressivo de erros tipográficos, que foi justamente o que teria motivado uma série de revisões posteriores que, em maior ou menor grau, acabaram por descaracterizá-la. Contudo, pesquisas mais recentes já haviam identificado um exemplar único, conservado na Biblioteca Nacional de Portugal, que trazia uma errata com as respectivas correções feitas à mão pelo próprio tradutor. Feitas as adaptações sugeridas nessa edição, o texto resultante apresenta elevado grau de correção e fluência, bastando uma atualização ortográfica e outros ajustes gramaticais mínimos para a sua perfeita legibilidade nos dias de hoje. Além disso, a forma textual da edição de 1681 apresenta grande harmonia estilística com os demais escritos do tradutor – o qual, além da tradução bíblica, tinha se dedicado também à literatura de polêmica religiosa.

O Novo Testamento de Batávia (1693)
A segunda edição do Novo Testamento (1693)

Já a segunda edição do Novo Testamento, publicada em Batávia no ano de 1693, apresentava fraseologia de menor qualidade, devido à interferência excessiva de revisores holandeses sem domínio suficiente do idioma português – fato já salientado, no início do século XIX, por António Ribeiro dos Santos (1745–1818). Foi justamente esta segunda edição “inferior” que acabou por influenciar as subsequentes e, em particular, a de 1773, cuja forma textual foi a primeira a ser disseminada em Portugal, pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, na edição histórica de 1819. Além disso, a comparação da edição de 1681 com um manuscrito do Novo Testamento, produzido na década de 1650 e preservado em microfilme no Arquivo Nacional dos Países Baixos, também serviu como indício para se considerar a edição de 1681 a mais próxima das intenções originais do tradutor. Finalmente, foi o próprio tradutor quem havia proposto ao conselho eclesiástico de Batávia a distribuição da primeira edição, com as devidas correções à mão, em vez de sua completa destruição, como havia sido cogitado – e em parte executado – pelas autoridades holandesas da Companhia das Índias Orientais, fato que corrobora a hipótese de sua aprovação quanto à edição, desde que expurgada de seus erros tipográficos.

Reunidos todos esses elementos, tanto na documentação primária como na bibliografia especializada, ficou clara a primazia que poderia ter tido, desde o século XVII, a edição de 1681, mas que acabou praticamente obliterada pelas revisões posteriores. Quanto ao Antigo Testamento, era também proposto no plano inicial justificar a primazia da edição de Tranquebar, publicada por missionários luteranos em cinco volumes entre 1732 e 1757, em comparação com a edição de Batávia, impressa em dois tomos (1748 e 1753). Nesse caso, a edição dos missionários de Tranquebar – colônia dinamarquesa na Índia – também se destacava por seu pioneirismo: já havia um propósito de revisão e publicação do Antigo Testamento de Almeida desde 1725, ao passo que, em Batávia, tal projeto só aparece com clareza na documentação holandesa vinte anos mais tarde, isto é, em 1745. Além disso, a edição de Tranquebar apresenta-se muito mais complexa, contendo introdução aos livros, resumos dos capítulos, referências cruzadas e notas de rodapé, algumas certamente de autoria do próprio tradutor português, como se afirma em um dos prólogos. E já havia bibliografia estrangeira, nomeadamente a do orientalista francês Gérald Duverdier (1938–2022), que argumentava a favor tanto do pioneirismo de Tranquebar na publicação de toda a Bíblia em português, como também do extremo empenho dos seus editores na “perfeição” do resultado, tanto na correção como na expressividade do idioma.

O fato é que as qualidades literárias da edição de Tranquebar – já reconhecida por literatos  de renome como Ribeiro dos Santos (1745–1818) e David Lopes (1867–1942) – acabaram simplesmente obliteradas pelo Antigo Testamento de Batávia, cujo texto foi também o escolhido para figurar na edição londrina de 1819. Em síntese, à semelhança do Novo Testamento de 1693, o Antigo Testamento de Batávia resultou de uma tentativa de harmonização mais ou menos artificial com a Statenvertaling holandesa, que por vezes torna a expressividade mais “dura”, menos poética, menos literária. E ainda em relação à maior fidelidade dos editores de Tranquebar para com o estilo do tradutor português, deve-se ter em conta que os missionários luteranos, chegados à Índia em 1706, utilizaram o próprio Novo Testamento de 1681 como instrumento para se familiarizarem com o idioma, fato referido na documentação da época. Além disso, é certo que eles utilizaram no processo editorial o manuscrito original do tradutor, enviado “secretamente” a Tranquebar em 1731 com o auxílio do governador holandês Theodor van Cloon (1684–1735). Isso porque há indícios de que a edição de Batávia deve ter se baseado ou numa cópia secundária do manuscrito, ou eventualmente nos próprios volumes impressos em Tranquebar.

Um volume do Antigo Testamento de Tranquebar (1738)
Um volume da edição de Tranquebar (1738)

Uma das principais singularidades da edição de Tranquebar, em comparação com a de Batávia, é a forma de tradução do tetragrama hebraico יהוה (yhvh), nome próprio usado exclusivamente para designar Deus no Antigo Testamento: em Tranquebar, em consonância com a preferência demonstrada pelo próprio Almeida em seus escritos de polêmica religiosa, o referido nome é traduzido em português por “Senhor”, enquanto em Batávia opta-se por “Jehovah”, forma aparentemente importada da tradução castelhana de Casiodoro de Reina. Mas talvez o principal mérito do Antigo Testamento de Tranquebar, que torna a edição bastante diferenciada quanto à expressividade poética do texto, é a extrema diligência com que os seus editores buscaram exprimir em português o acento hebraico disjuntivo אַתְנָח (atnach). Tal sinal de pontuação, de tradição massorética, divide cada verso do texto hebraico e aramaico em duas porções, e essa subdivisão aparece sinalizada de modo exato na edição de Tranquebar, geralmente pelo emprego de dois-pontos. Na edição de Batávia, esse detalhe também aparece por vezes, mas não com tanto rigor como em Tranquebar. Em nossa avaliação, foi justamente essa qualidade da edição pioneira de Tranquebar uma das principais perdas da tradição bíblica portuguesa, dada a perpetuação de revisões que não a levaram em conta – o que justificava ainda mais a proposta de revitalização delineada no plano de investigação.

Antigo Testamento de Batávia
Primeiro volume da edição de Batávia (1748)
Edição de 1819
A edição britânica de 1819