O trabalho de revitalização crítica das edições
O texto da Bíblia Almeida Original foi resultado de um esforço sistemático e minucioso de revitalização crítica, sendo consultadas paralelamente versões bíblicas da época em outros idiomas (castelhano, francês, italiano, holandês, latim, etc.) para se decifrar escolhas textuais que, muitas vezes, poderiam soar hoje incompreensíveis.
Inúmeras dificuldades gramaticais só foram solucionadas após consulta aos idiomas originais, que justificavam o uso de determinadas formas inusitadas, inclusive para o português seiscentista – aspecto já observado sobre o texto antigo de Almeida por figuras de relevo, como Manuel do Cenáculo (1724–1814), António Pereira de Figueiredo (1725–1797) e Fortunato de São Boaventura (1777–1844). Adicionalmente, no processo de atualização ortográfica do Antigo Testamento, seguiu-se criteriosamente um sistema de pontuação que contemplasse a marcação, na edição de Tranquebar, do acento massorético disjuntivo אַתְנָח (atnach), que marca a principal pausa dentro de cada verso. Com o intuito de preservar esse aspecto fundamental da poética hebraica, mas sem ferir as atuais normas gramaticais da língua portuguesa, adotou-se como critério que, sempre que tal pontuação aparecesse no texto hebraico, ela deveria corresponder, no texto atualizado, à pontuação mais forte do verso (seja uma vírgula, seja um ponto-e-vírgula, sejam os dois-pontos, seja um ponto final, etc.).

A marcação dessas pausas principais foi um aspecto fundamental da edição de Tranquebar, e exigiu uma atenção redobrada no processo de atualização. Por isso, o uso de qualquer tecnologia de automação no trabalho de transcrição precisou ser abandonado, devido ao risco de perder-se a riqueza textual das edições antigas, que deveriam ser restauradas conscientemente, palavra por palavra. Além disso, um desafio adicional impunha-se: devia-se ter clareza quanto ao aspecto mais ou menos “inacabado” das edições bíblicas contempladas. Isso porque, quanto ao Novo Testamento, embora houvéssemos tomado por base a edição primitiva corrigida à mão pelo próprio tradutor, era pressuposto que tal versão, apesar de sua clara expressividade literária, pudesse ainda conter lapsos, sejam tipográficos, sejam mesmo gramaticais. Pois mesmo neste caso, o trabalho de revisão realizado em Amsterdã também havia sido responsabilidade de estrangeiros, de modo que sua forma textual final, embora bem representativa do estilo do tradutor, não deveria ser considerada sempre imaculada. Na prática, não convinha transcrever o texto “cegamente”, ou automaticamente, mas sim muito atentamente, comparando-o com outras versões bíblicas de referência para o contexto da tradução, e procedendo a eventuais ajustes – somente em casos muito pontuais.

Em relação ao Antigo Testamento, embora o processo de revisão realizado pelos missionários de Tranquebar tenha sido extremamente acurado – razão pela qual foram necessários vinte e cinco anos para sua conclusão –, não se deve ignorar que, mesmo neste caso, o trabalho também foi obra de estrangeiros. Isso não quer dizer, obviamente, que o texto pudesse ter sido livremente adaptado no processo de revitalização, mas que eventuais lapsos poderiam estar ali presentes. Além disso, o aspecto “inacabado” dessas edições antigas também se evidencia pelo fato de que, segundo o testemunho dos próprios missionários, a qualidade da tradução manuscrita, usada como base do processo editorial, decaía conforme avançava a idade do tradutor, possivelmente por razões de saúde, de modo que os próprios revisores sentiram-se mais livres para proceder a adaptações – o que pode eventualmente ter prejudicado o texto, sobretudo em sua expressividade em português. Finalmente, deve-se observar que os missionários de Tranquebar não apenas revisaram e publicaram o manuscrito, mas também o completaram, pois o tradutor havia deixado o trabalho inacabado, falecendo antes de traduzir o Livro de Daniel e os chamados Profetas Menores. O próprio Ribeiro dos Santos já havia observado que, quanto ao Livro de Daniel, sua qualidade literária estaria à altura do estilo de Almeida. Mas sobre os Profetas Menores, o mesmo autor considerou sua linguagem não muito apurada, por ser obra de tradutores estrangeiros.
Com isso em mente, buscou-se no processo de transcrição um equilíbrio entre a conservação do texto tal como se encontrava, mesmo em seus arcaísmos, atualizando-se apenas a sua ortografia, mas sem ignorar pequenas adaptações gramaticais que aperfeiçoassem a sua expressividade em português. E isto tendo-se em vista também a particularidade de cada volume: no Pentateuco (1757), por exemplo, os ajustes necessários foram mínimos, quase nulos, ao passo que nos Profetas Menores (1732) houve uma maior necessidade de intervenção, a fim de minimizar as deficiências do texto já reconhecidas pela bibliografia especializada, harmonizando o resultado aos volumes mais bem acabados. Em linhas gerais, julgou-se excessivo, por exemplo, o uso de preposições para objetos diretos, como em “façamos ao homem”, dando preferência a “façamos o homem” (Gn 1:26). Por vezes, foram inseridos artigos definidos, sobretudo em casos de pronomes possessivos: “havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra”, e não “sua obra” (Gn 2:2). Também julgou-se oportuna a inserção de artigos definidos antes de alguns nomes próprios, em expressões já consagradas no idioma, como no caso de “o Faraó”, “o Egito”, “a Babilônia”, etc. Em alguns versos, a posição dos pronomes oblíquos foi alterada: em vez de “se levantou Caim contra seu irmão Abel”, optou-se por “levantou-se Caim contra seu irmão Abel” (Gn 4:8). Alguns hebraísmos foram também relativizados, como na expressão “achou graça em os olhos do Senhor”, optando-se por “aos olhos do Senhor”, bem mais idiomático.
No tocante ao vocabulário, seguiu-se por regra a plena manutenção de sua forma, mesmo em casos de estranheza ou arcaísmo – traços estilísticos também já observados no texto antigo de Almeida pela literatura especializada desde o século XVIII, mas reputados por Ribeiro dos Santos como o mais puro classicismo. Contudo, tendo em vista o propósito de uma ampla disseminação do resultado do trabalho, não somente para um público especializado, mas também para os leitores de um modo geral, foram realizadas adaptações vocabulares muito excepcionais, sobretudo em dois casos extremos: 1) quando os vocábulos que aparecem no português arcaico adquiriram um sentido muito diverso do atualmente em vigor; 2) quando os termos arcaicos passaram a evocar um sentido inapropriado para o propósito da ampla utilização do texto, fora do círculo acadêmico. No primeiro caso, foram substituídos, por exemplo, “narizes” por “narinas” (Gn 7:22); “apartamentos” por “compartimentos” (Gn 6:14); “crioulos” por “criados” (Gn 14:14); “convite” por “banquete” (Gn 19:3); “tentar” por “testar” (Gn 22:1), “solteira” por “rameira” (Gn 34:31); “novamente” por “recentemente” (Mt 2:2), “endereçar” por “endireitar” (Mt 3:3), “defender” por “censurar” (Mt 12:16), etc. Para o segundo caso, procedeu-se à substituição, por exemplo, de “beiços” por “lábios” (Mt 15:8); de “puta” por “prostituta” (Dt 23:17); de “vagabundo” por “errante” (Gn 20:13); “bosta” por “esterco” (Ez 4:15), etc.

De qualquer modo, as adaptações vocabulares foram mínimas, motivadas pelo propósito de que o resultado tivesse maior impacto social, extrapolando seus limites acadêmicos. Em muitos casos, bastou uma mera intervenção no prefixo de certas palavras para que o termo se tornasse claro para o português contemporâneo, como no caso da adaptação de “nome” para “renome” (Gn 11:4); de “conhecer” para “reconhecer” (Gn 27:23); de “transportar” para “deportar” (1 Cr 9:1). Por vezes, foram adicionadas preposições para conferir maior clareza à oração; em outros casos, foram inseridas pequenas partículas de ênfase, também para tornar a leitura do texto mais natural no português atual. Houve também pouquíssimos casos em que foi alterada a ordem dos termos na oração, por uma questão de eufonia. Quanto aos topônimos e antropônimos, seguiu-se, por regra, a sua manutenção de acordo com a tradição já estabelecida nas principais versões da Bíblia Almeida hoje em circulação, exceto nos casos em que a pronúncia sugerida pelas edições de base indicasse claramente outro padrão, baseado na fonética dos idiomas bíblicos originais, como no caso de “Elcaná” em vez de “Elcana” (1 Sm 1:1), ou de “Joiadá” em vez de “Joiada” (1 Cr 11:22), ou ainda do rei “Asá”, e não “Asa”.
É preciso reforçar que as adaptações realizadas foram muitíssimo pontuais, se considerada a extensão do texto transcrito e atualizado. Além disso, ao se adotar como parâmetro não apenas a simples reprodução do texto arcaico, mas efetivamente a sua “revitalização crítica”, tornando-o inclusive apto para um uso público mais amplo, o trabalho envolvido tornou-se incalculavelmente maior. Cada verso foi analisado cuidadosamente, e cada adaptação textual, por mínima que fosse, só se realizou após refletida análise, com base nas versões bíblicas usadas como referência pelo próprio tradutor, consultando-se também edições nos idiomas originais. E deve-se levar em conta que esse longo processo de revitalização textual não pôde deixar de envolver também um certo aspecto autoral, diferente de uma mera transcrição acrítica, dada a natureza histórica peculiar das edições bíblicas selecionadas, mais ou menos inacabadas, revisadas por estrangeiros. Portanto, não houve qualquer tipo de intervenção “censória” no texto. Pelo contrário: com base no plano inicial, buscou-se o resgate das edições primitivas de Amsterdã e Tranquebar, não para encerrá-las num círculo restrito de especialistas, mas sim disseminá-las para fora do ambiente acadêmico, de modo a reafirmar, o mais amplamente possível, o seu valor como patrimônio histórico, literário e religioso da língua portuguesa.


